Queridos irmãos e irmãs,
Como forma de contribuir para a não proliferação do COVID-19, há mais de noventa dias suspendemos, em nossa diocese, todas as nossas missas com a presença da assembleia litúrgica assim como também nossas atividades pastorais.
Neste itinerário exílio-êxodo, estamos fazendo uma experiência dolorosa e, ao mesmo tempo, rica da graça de Deus, o Pai Misericordioso de Jesus, que não nos tem faltado com o seu cuidado e amparo.
Este tempo de distanciamento social tem nos oferecido a oportunidade de rever o significado mais profundo de nossa missão de batizados e de intensificar nosso compromisso de solidariedade com os que mais sofrem. Descobrimos novas formas de evangelizar e de fortalecer a nossa fé, sobretudo em nossas igrejas domésticas, aprendemos formas mais seguras de nos protegermos e prevenirmos deste inimigo invisível.
Com o coração repleto de esperança, alimentamos o desejo de superação desta realidade e de dias melhores para todos nós. De forma responsável e comprometida com a vida, que é missão da Igreja, estamos fazendo um caminho de retomada gradual de nossas atividades, principalmente da santa missa, reconhecendo a importância da vida eclesial a todos nós.
Temos visto nos noticiários, e presenciado, que muitos de nossos irmãos e irmãs passam por situações de extrema privação. Também presenciamos, de perto e de longe, o sofrimento daqueles que nos são mais caros e, mesmo limitados em nossas ações, não deixamos de nos fazer solidários e de oferecer no Altar do Senhor a vida de todos. Em meio a tanto sofrimento e perplexidade, não podemos nos deixar levar pelo medo que nos paralisa e pela tristeza que nos rouba a alegria, mas devemos ser semeadores do Senhor e semear a esperança e consolar os corações aflitos.
A perda do contato humano durante este tempo nos empobreceu profundamente, quando fomos separados dos vizinhos, dos amigos, colegas de trabalho e especialmente da família, incluindo a crueldade total de não podermos acompanhar os moribundos nos seus últimos momentos de vida e depois chorá-los devidamente. Para a retomada de nossa convivência no futuro se faz necessário redescobrir e encontrar formas de fortalecer agora esta possibilidade, de um modo diferente.
A pandemia gerou em nós uma urgência de mudança, em todos os âmbitos. Mais do que em outros tempos agora é momento de remover, de uma vez por todas de nossa sociedade, as desigualdades e as injustiças que dividem as classes colocando uma hierarquia de superioridade entre os filhos de Deus. Diante de consequências tão trágicas e dolorosas que temos acompanhado no mundo inteiro, não podemos permanecer como antes.
Com o desejo de superação desta pandemia não podemos jamais nos esquecer dos que ficaram para trás. Caso isso ocorra, um vírus ainda pior nos atingirá: o da indiferença que exclui o nosso semelhante. A nossa vida após a pandemia não pode ser uma réplica do que se passou antes, independentemente de quem costumava se beneficiar de forma desproporcionada.
Enfim, cultivar a esperança pela oração, é a atitude mais precisa em tempos tão sombrios. A nossa oração é o caminho para descobrirmos como nos tornarmos discípulos e missionários, encarnando o amor incondicional em circunstâncias tão diversas. Este caminho pode conduzir-nos a uma visão diferente do mundo, das suas contradições e das suas possibilidades, pode ensinar-nos dia após dia como converter as nossas relações, estilos de vida, expectativas e as nossas políticas para o desenvolvimento humano integral e para a plenitude da vida.
Como nos disse o Papa Francisco, “não deixemos que nos roubem a esperança! ”. Em meio a forte tempestade e ao vento impetuoso, o Senhor conosco está e jamais nos deixará naufragar. Ele leva para longe de nós o medo e nos deseja a sua paz, que é ele mesmo, presença que renova e nos encoraja a seguir em frente.
Dom Marco Aurélio Gubiotti
Bispo Diocesano de Itabira-Coronel Fabriciano
“Pela Graça de Deus” (1Cor 15,10)