Artigos de Formação

Resgatando a conferência de Medellín: cinquenta anos depois 1968 – 2018

Celebramos neste ano de 2018 cinquenta anos da Conferência Episcopal de Medellín, na Colômbia, sem dúvida um marco referencial para a caminhada eclesial na América Latina.

Profundamente inspirada pelo Concílio Vaticano II, a Conferência de Medelim, como disseram os próprios bispos na introdução do Documento, “significou uma tomada de consciência mais profunda do serviço que a Igreja Latino-americana tinha que prestar naquele momento”

Naquele desafiante contexto disseram os bispos: “não basta, certamente, refletir. Conseguir mais clarividência e falar. É necessário agir. A hora atual não deixou de ser a hora da palavra, mas já se tornou, com dramática urgência, a hora da ação”.

Pois bem, hoje, cinquenta anos depois, qual o alcance dessas palavras para nós. Ainda continuam ecoando com toda sua enorme força de transformação, ou estão  sendo sufocadas e, ou ofuscadas por outras posturas diante da realidade. Os anos se passaram, mas os desafios históricos continuam. E diante deles se espera da Igreja não só uma palavra, mas uma atitude que resgate nos cidadãos a esperança que não decepciona.

A postura profética assumida pelos bispos latino-americanos em Medelim não pode ficar no passado. Se isto acontecer, estaremos “engavetando” um compromisso evangélico seriamente assumido, que continua ainda batendo às portas de nossa Igreja.

A Conferência de Medellín levou muito a sério, e se identificou profundamente com as palavras da Constituição Gaudiun et Spes; “ as alegrias e esperanças, as tristezas e angustias do homem de hoje, sobretudo  dos pobres e daquele que sofrem, são também as mesmas alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo, e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco em seu coração”.

O momento atual, com suas diferenças, mas tão exigente quanto o contexto de cinquenta anos atrás em que se pronunciaram os bispos latino-americanos na Conferência de Medellín, está ai diante de nossos olhos, a nos interpelar. Num cenário onde as instituições representativas de poder se acham desacreditadas, num contexto onde o medo e a insegurança parecem vencer a esperança, qual tem sido a nossa postura enquanto Igreja.

Mais e mais é preciso que façamos hoje o que fez Medellín: deixar para traz o modelo de cristandade, inaugurar uma nova etapa em nossa história, e nos comprometermos efetivamente com aquele apelo que nos faz o Papa Francisco. Na primavera inaugurada por ele, que nossa Igreja, pela sua palavra e pelo seu testemunho, possa revelar-se realmente como Igreja em saída. Para que isto aconteça, deixemo-nos contagiar por um necessário processo de “conversão pastoral”

Fazer memória dos cinquenta anos da Conferência Episcopal de Medellín não pode ser apenas uma celebração, um momento de comemoração, mas deve revestir-se de uma renovação da esperança e do compromisso com o Reino de Deus aqui, na nossa hora, em nosso chão.

Especificamente diante da situação atual pela qual passa o nosso país, onde predominam a indignação, a insegurança e até, em certos momentos, o medo, a Igreja deve assumir de forma mais profética e efetiva o seu papel. Ela pode e deve ajudar no resgate de nossos sonhos, fazendo suas as palavras de Deus ao profeta Elias: “levante-se e coma, pois você tem um longo caminho a percorrer”.

Passados cinquenta anos, a proposta de Medellín continua sendo para nossa Igreja uma referência. O Vaticano II chamou a Igreja a dialogar com o mundo moderno. Aparecida nos convida a ser Igreja de discípulos- missionários a serviço da vida. Medellín, neste inquietante momento pós-modernidade, continua chamando a Igreja para dialogar com a realidade latino-americana a partir dos pobres e de sua incansável esperança.

À luz das propostas da Conferência de Medellim, e também tendo em vista nossa atual conjuntura eclesial, convém que façamos  uma sincera, transparente e necessária reflexão: retrocedemos, nos estagnamos no tempo ou avançamos. Que horizontes se descortinam para a nossa caminhada eclesial.

Pe Carlos Jorge Teixeira