Notícias da Diocese

Entrevistando o Bispo

“Se a sociedade civil e a Igreja tivessem se organizado, poderíamos não ter tido o crime humano e ambiental de Brumadinho”. As palavras firmes, e que chamam à responsabilidade de todos os cristãos, são de Dom Marco Aurélio Gubiotti.

Durante a entrevista concedida ao repórter Roberto Meokarem, da Rádio Itabira, no dia 01 de março, na Cúria Diocesana, em Itabira, o bispo diocesano falou sobre assuntos muito pertinentes ao atual momento vivido, sobretudo, pelo povo mineiro.

Entre os principais pontos abordados estão a Campanha da Fraternidade, os debates que a Igreja tem levantado a respeito da extração mineral e suas consequências, e a IV Romaria das Águas e da Terra.

  • Campanha da Fraternidade: “Fraternidade e Políticas Públicas”

O tema é amplo e vai ao encontro da sistemática e firme posição da Igreja diante da falta de políticas que amparem os mais necessitados, aqueles que, com frequência, são colocados à margem das tomadas de decisão.

Segundo Dom Marco Aurélio, a Igreja trabalha as temáticas sociais da Campanha da Fraternidade durante o Tempo Quaresmal porque este é um período propício para a conversão. É a proposta de uma vivência amparada na espiritualidade de uma conversão que não fique trancada em si mesma e/ou no âmbito familiar. Ao contrário, que seja uma transformação do ambiente em que se vive. É o cristão assumindo para si a função de ser “sal da terra e luz do mundo”.

Políticas públicas, Igreja e quaresma “tem muito a ver” – afirma o bispo: “porque nós queremos converter o nosso coração para ajudar os irmãos a terem seus direitos, principalmente o direito à vida e à sua dignidade, respeitados. Um instrumento importantíssimo de defesa, principalmente dos mais fracos, é se ter políticas públicas que façam valer os direitos que a Constituição traz para os cidadãos, e muito especialmente para os mais fracos”.

Embora a Igreja não seja a responsável pelo desenvolvimento dessas políticas, ela deve colaborar, junto com outras forças sociais, para que as políticas públicas se voltem à defesa e promoção da vida, dos direitos fundamentais da pessoa, como saúde, educação e moradia.

Alinhado com as proposta do Papa Francisco, Dom Marco Aurélio reafirma o compromisso da Diocese em ser uma Igreja em saída. A partir daí, entende-se, portanto, que a conversão não pode, e não deve, ficar trancada nas sacristias e no ambiente eclesial.

  • Mineração

Em fevereiro, Dom Marco Aurélio esteve em Belo Horizonte participando de dois encontros.

O primeiro, a convite de Dom Walmor Azevedo, Arcebispo Metropolitano, com os bispos auxiliares, alguns deputados da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, representantes do Ministério Público e do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil).

Deste encontro, o bispo diocesano saiu com a “impressão” de que há uma movimentação significativa no sentido de questionar o atual modelo minerário praticado em Minas Gerais. Sobre este assunto, ainda fez referência a recente aprovação do Projeto de Lei, já sancionado pelo governador do Estado, Romeu Zema, que endurece as ‘regras do jogo’ para as mineradoras. Entre os principais pontos do substitutivo, encontra-se a proibição da instalação de barragens a montante no Estado – o mesmo tipo de barragens rompidas em Mariana, em 2015, e este ano em Brumadinho.

O segundo encontro foi a reunião da CEP (Comissão Episcopal de Pastoral) composta por bispos do Regional Leste 2. Nesta comissão, Dom Marco Aurélio é bispo referencial da Ação Social Transformadora que compreende 13 pastorais sociais presentes nas dioceses dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Também participaram o governador Romeu Zema, o vice-governador e dois secretários de Estado.

Na reunião, Dom Walmor chegou a falar da representatividade da Igreja Católica no desenvolvimento de Minas Gerais, oferecendo contribuições em diversas áreas como saúde, educação e turismo, além da dimensão religiosa.

Segundo Dom Marco Aurélio, Romeu Zema “disse da preocupação dele em relação à questão minerária e da esperança que tem de ser o último governador do Estado de Minas Gerais a sofrer uma situação dessa. Em meio a tantos problemas, especialmente a crise financeira, ainda ter que enfrentar esta realidade”.

Ainda sobre a mineração, o bispo falou que recebeu na Cúria, juntamente com o Padre Francisco Neto, a visita de dois representantes da Vale. Na oportunidade, foram esclarecidas dúvidas e feitos vários apontamentos sobre o futuro de cidades como Itabira, após o fim das operações da empresa. Sobretudo, a quem caberá a responsabilidade de todo o rejeito que não será levado com o término da mineração? 

  • IV Romaria das Águas e da Terra

A IV Romaria da Província Eclesiástica de Mariana, que traz como tema “Bacia do Rio Doce: Nossa Casa Comum”, será realizada este ano em Itabira e deve reunir representantes da Arquidiocese de Mariana, dioceses de Governador Valadares, Caratinga e Itabira-Coronel Fabriciano. Também foram convidadas outras dioceses da Bacia do Rio Doce.

A Romaria, que vai para a sua quarta edição, “foi criada como uma reação e celebrando aquilo que aconteceu em Mariana” – disse Dom Marco Aurélio.Ela é um importante momento para debater as questões que envolvem “dois patrimônios importantíssimos”: as terras e, principalmente, as águas. Mas embora tenha surgido como uma reação ao que aconteceu em Mariana, não há como não trazer às discussões a recente tragédia de Brumadinho.

O evento visa unir as forças vivas das dioceses mostrando que “a Palavra de Deus e a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo ilumina esta realidade, essa luta em defesa da casa comum, essa luta pelo dom que nós recebemos de Deus, que é o dom da água. Ela é nossa, é patrimônio comum e não pode ser usada em benefício de uma determinada empresa como se não tivéssemos nenhuma responsabilidade a respeito disso. É uma defesa dos bens da natureza e do direito à vida da pessoa humana”.

Além do repórter Roberto Meokarem, da rádio Itabira, estiveram presentes durante a entrevista a jornalista Liliene, membro da Pastoral da Comunicação e o Pe. Ueliton Neves, Assessor Diocesano de Comunicação.