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Dom Evaristo, um típico franciscano: sempre em defesa da “criação”

Dom Evaristo Pascoal Spengler, bispo da Prelazia do Marajó (PA), pousou em terras mineiras no domingo, 30 de junho. A convite de Dom Marco Aurélio Gubiotti, bispo diocesano de Itabira-Coronel Fabriciano, participou do retiro anual do clero realizado em Belo Horizonte, na Casa de Retiros São José (de 1 a 5 de julho).

Na sexta-feira, 6/07, veio para Itabira. Celebrou a Santa Missa na Igreja Matriz Nossa Senhora da Saúde e não parou um minuto no fim de semana: esteve em Ipatinga, Coronel Fabriciano e João Monlevade.

Na segunda-feira, 8, ele nos concedeu uma entrevista, realizada na Cúria Diocesana, em Itabira.

Dom Evaristo – um Francisco de Assis na caminhada

Ele tem olhos afetuosos e um largo sorriso que, já num primeiro contato, é capaz de desarmar qualquer alma mais afoita. Tem 60 anos, 35 deles só de ordenação presbiteral e no próximo 6 de agosto, completa 3 anos de ordenação episcopal.

É natural da cidade de Gaspar, território do Vale do Itajaí em Santa Catarina. Ao longo dos anos dedicados à vida sacerdotal, reuniu significativa bagagem. Serviu na Baixada Fluminense (RJ) e, por 10 anos, na República de Angola, no continente africano.

O despojamento e a simplicidade retratam bem a sua origem dentro da Igreja Católica: é da Ordem dos Franciscanos (Frades Menores) – daí, talvez, essa “personificação” de uma “Igreja sem paredes”, capaz de rodar o mundo se adaptando aos tempos (ou à temporalidade) e interagindo com as realidades, indiferentemente do lugar e do contexto.

É possível (e muito desejável) ficar horas ouvindo suas histórias, que dariam um livro de enlevar o espírito mais teimoso e resoluto e, possivelmente, de fazer sorrir até os santos. Embora firme, não parece ser de embates, ainda que esteja hoje em um dos estados abarcados pela gigante Pan-Amazônia e vivencie diariamente os conflitos e carências desta região tão peculiar.

Assim, olhando de soslaio, ele é mesmo um Francisco de Assis na caminhada. Tem a responsabilidade e a autoridade de um “Dom”, mas entre uma fala e outra, se apresenta com aquela imagem que nós, leigos, temos de um “Frei” e lá, nas bandas fartas de água, de pluralidades inimagináveis para muitos, ele deve ser visto mesmo como “o bom Pai (Padre)” ou como o bom pastor – aquele que faz o caminho de volta, se necessário, para resgatar uma só ovelha.

Entrevista

A entrevista com Dom Evaristo foi dividida em duas partes: a primeira trata da visita à Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano e da realidade/desafios da Igreja no Marajó. Na segunda parte, ele fala sobre o Sínodo Pan-Amazônico – dadas as peculiaridades e importância do Sínodo, você pode acessar esta parte da entrevista e a reportagem completa no link: Sínodo Pan-Amazônico – sob o olhar de Dom Evaristo Spengler

Visita à Igreja Irmã (Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano)

Esta foi a segunda vez que Dom Evaristo esteve em Itabira. A primeira foi em 2016. Ele elogiou a comunidade de fé da diocese, sempre muito receptiva e calorosa. Para alguém já adaptado ao clima paraense, chegar em pleno inverno mineiro poderia assustar. Que nada. Dom Evaristo resumiu as baixas temperaturas dos últimos dias à seguinte frase: “O clima está bem ameno”!

Projeto “Igrejas-Irmãs”

A iniciativa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) surgiu a partir da percepção e reconhecimento da “realidade” da igreja na Amazônia. Uma região na qual “existem poucos padres, pouca gente ainda com possibilidade de ajudar a conduzir a formação na Igreja. Em outras regiões no Brasil, nós temos muitos padres, muitos religiosos e também gente leiga bem preparada e formada. Então, surgiu na CNBB essa busca pela comunhão entre as igrejas-irmãs. Uma Igreja do Sul e do Sudeste que pudessem apoiar, assumir uma Igreja na Amazônia. Isso tem dado frutos muito bonitos. Nós já tivemos padres daqui da diocese que passaram um período conosco. Queremos estreitar cada vez mais esses laços, essa união. Rezamos uns pelos outros todos os dias. Nós colocamos em todas as missas, em todas as eucaristias celebradas no Marajó, a intenção por Dom Marco Aurélio e por esta Diocese.”

Desafios da Igreja Católica na Prelazia do Marajó

– “Temos (atualmente) 10 paróquias em 9 municípios. Mas as cidades (polos urbanos) absorvem muito a presença dos padres, que têm um tempo limitado para as visitas no interior. Nós temos no Marajó em torno de 700 comunidades, cerca de 500 delas no interior e a maioria tem apenas uma eucaristia ao ano. A Eucaristia é o centro, é o ápice da vida cristã. Então, como entender um cristão que passa o ano inteiro querendo comungar e não pode receber este sacramento? A realidade das distâncias geográficas é um problema bastante sério. Outro, é a pouca formação das nossas lideranças. Certamente, quando tivermos ministros mais preparados, mais formados, também teremos uma presença mais forte da igreja no interior. Mas estamos rezando, trabalhando para que a igreja possa se fortalecer na vida de todos os cristãos.”

– Sobre o poder e a exploração econômica: “o Papa Francisco quando esteve no Peru, em 2018, usou uma expressão que é bastante significativa: ‘a Amazônia está sendo disputada’. Disputada pelo capital financeiro que vê na Amazônia, de fato, um lugar onde tem tudo e no qual se pode ir e buscar para usufruir pensando apenas no nosso próprio bem. Lá tem minério, tem árvores, tem água. Existem muitos recursos e as pessoas vão com uma mentalidade predadora de levar o que traz riquezas (minério, madeira, agricultura). São pessoas que vão e não se comprometem com a Amazônia, querem extrair a riqueza pensando que ela é inesgotável. Não! Ela se acaba também! Se nós não tivermos o cuidado, ela vai ser totalmente destruída. Então, a igreja enfrenta esses conflitos hoje permanentemente. Cada diocese, cada paróquia, não tem como fazer esse enfrentamento. A Igreja criou hoje uma rede chamada Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e que tem várias comissões: comissão da mineração, dos grandes projetos hidrelétricos, comissão das fronteiras e várias outras. Há uma união de forças de todas as prelazias e dioceses em busca de caminhos também para ajudar o nosso povo a ser respeitado nos seus direitos, e que ele não tenha de fato uma Amazônia depredada, cujo resultado do que fica é o lixo para o povo.”

Por Liliene Dante
Paróquia Nossa Senhora da Saúde – Itabira

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